A adoração das 40 horas
Rei e Senhor do Universo, merece Jesus Cristo Nosso Senhor, real e
verdadeiramente presente na Sagrada Eucaristia, que se Lhe prestem honras
públicas, devidas a seus direitos sobre toda a criação.
Entre elas, a piedade católica, sancionada posteriormente por decretos
pontifícios, excogitou a Adoração das 40 Horas, em que durante três dias o
Santíssimo Sacramento é solenemente exposto, noite e dia, à pública adoração.
Neste período, nenhum leigo deve entrar a rezar no presbitério.
Os Romanos Pontífices concederam inúmeras indulgências aos que publicamente
façam atos de veneração ao divino Juiz e Rei Soberano, entre elas a de poder
ganhar, em cada um dos três dias, uma indulgência plenária, fazendo uma visita
a Sua Divina Majestade, tendo-se confessado e comungado, rezando diante do
Santíssimo cinco Pater, Ave e Gloria, acrescentando mais um pelas intenções do
Romano Pontífice. Igualmente, tantas vezes quantas se faça tal visita, podem-se
ganhar quinze anos de indulgência.
A seguir, um resumo da história desta devoção, das principais normas litúrgicas
e de algumas normas práticas, adequadas às dificuldades das capelas pequenas,
nas quais um só sacerdote estará presente.
História
Na Idade Média (pelo menos desde o século X), difundiu-se em muitos lugares a
devoção ao Santo Sepulcro do Salvador. Mantinha-se este erigido desde a
Adoração da Cruz, na Sexta-Feira Santa, até a Missa de Ressurreição do Domingo
de Páscoa. Durante este tempo (cerca de 40 horas) os fiéis oravam diante dele,
recitando ou cantando salmos e outras preces, em memória e reconhecimento da
morte e sepultura do Senhor, que também esteve no Sepulcro cerca de 40 horas,
segundo fundada opinião.
Ao princípio, punha-se no sepulcro o símbolo de Jesus Cristo: a Cruz. No século
XII, depositava-se nele o Crucifixo ou a imagem de Cristo. Mais tarde, no
século XIV, colocou-se em relicário, incrustado no flanco desta imagem, o mesmo
Corpo sacramentado de Jesus (com o qual a função adquiria um caráter de viva
realidade, que excitava extraordinariamente a devoção dos fiéis). Por último,
colocou-se no Sepulcro ─ digamos Tabernáculo ─ unicamente Jesus Sacramentado.
Entretanto, esta devoção não seguiu em todas as partes o mesmo processo. Já no
século X o santo Bispo Ulrico, de Augsburgo, depositava no Sepulcro somente o
Santíssimo Sacramento. E no século XII os habitantes de Zara, metrópole da
Dalmácia, também velavam Jesus Sacramentado, encerrado no Sepulcro, desde o
entardecer de Quinta-Feira Santa até o meio-dia do Sábado Santo, por
antecipar-se para este dia a Missa de Ressurreição, como se faz hoje.
Bastava que esta função ─ chamada já no século XIII Oratio XL Horarum in
Passione Domini
─ se transferisse para outros dias do ano, para que dela resultasse a atual
função das 40 Horas. O traslado fez-se no século XVI.
Em 1527, Antonio Belloto fundou na Igreja do Santo Sepulcro de Milão uma
confraria, cujo objetivo precípuo era orar durante quarenta horas diante do
Santíssimo posto no sepulcro, nas quatro principais festividades do ano, em
memória da morte e sepultura de Jesus, com o fim de impetrar remédio para as
grandes calamidades que então afligiam a Cristandade.
Dois anos mais tarde, o Pe. Tomás Nietto, OP, começou a propagar em todas as
igrejas paroquiais de Milão essa devoção, divulgada em seguida por Santo
Antonio Maria Zaccaria, com fruto ainda mais abundante, tanto em Milão como em
Vicenza, pelos anos 1530 a 1534; com a particularidade de que este principiou a
celebrar as 40 Horas com o Santíssimo Sacramento visivelmente exposto, como se
fazia desde o século XIV em muitos lugares, em outras funções de Exposição.
Vale esclarecer que, quando foi introduzida a procissão de Corpus Christi,
na segunda metade do século XIII, o Santíssimo era levado num vaso ou cálice
cerrado e coberto por um véu. As custódias ou monstratoria, que através
de um cristal deixavam ver o Santíssimo Sacramento, parece que começaram a ser
usadas no século XIV, e somente em alguns lugares. Nos tempos de São Carlos
Borromeo (1538-1584), observava-se em Milão um vestígio dessa disciplina
antiga, pois, se bem que exposto o Santíssimo dentro de um vaso cilíndrico de
cristal rematado em pirâmide, através do qual se podia ver a Sagrada Hóstia,
tal vaso se cobria com um largo véu, por reverência à Sua Divina Majestade.
A Exposição do Santíssimo ─ visível ou velado no cálice ─ para sua adoração
pelos fiéis é uma das principais manifestações do desenvolvimento do culto
direto a Jesus na Sagrada Eucaristia, que teve lugar, sobretudo a partir do
século XIII, influindo não pouco sobre essa iniciativa o combate às heresias
contra a presença real de Jesus Cristo no Sacramento, que apareceram a partir
do século XI até o século XVI. Tais heresias, avivando a crença do povo cristão
na divina Eucaristia, fizeram sentir a necessidade de render a Nosso Senhor a
homenagem que reclamam Sua divindade e Sua bondade no Santíssimo Sacramento.
Claro que contribuíram para estender mais e mais as Exposições, públicas ou
privadas, a Festa de Corpus Christi e o exercício das 40 Horas. Estas
manifestações foram o termo feliz da evolução da devoção ao Santo Sepulcro de
Nosso Senhor Jesus Cristo. Deus reservava aos tempos modernos esse foco de
piedade da Exposição da Sagrada Eucaristia, que sua Providência nos depara com
a habitual suavidade de seus traços divinos.
Por fim, o famoso pregador Pe. José de Fermo promoveu, nos anos 1537 e 1538, a
instituição da Adoração Perpétua nas igrejas de Milão, pela qual nestas se
sucedia, sem interrupção, a celebração das 40 Horas.
Santo Inácio de Loyola, com os seus, levou esta devoção a Roma. Foram também os
jesuítas que a introduziram na Alemanha.
Paulo V a aprovou por primeira vez em 1539, e Clemente XI ordenou
definitivamente seu rito, estabelecendo-a em Roma, em turno de Adoração
Perpétua, mediante a famosa Instrução Clementina, publicada em 1705.
Da capital do orbe católico, estenderam-se as 40 Horas por todo o mundo.
(Pe. José Vendrell, Pe. Antonino Tenas, Pe. Pedro Farnés, Pe. Joaquín Solans,
"Manual Litúrgico" - Subirana, Barcelona, 1955, 2º vol., pp. 351-352,
189-390).