terça-feira, 15 de outubro de 2013

BASTOU UMA PALAVRA DE DEUS PARA CRIAR A LUZ...

(continuação de trechos de Matthias Joseph Scheeben :retiradas do seu magnífico livro intitulado "As Maravilhas da Graça Divina")
 
     Bastou uma palavra de Deus para criar a luz e todo o esplendor do mundo; com a mesma facilidade colocou na firmamento as estrelas e na terra as plantas e os animais: por um movimento da sua vontade, deu a vida aos anjos, e surgiram os homens de m sopor de seus lábios. Realizou os maiores milagres, como a brincar, com a palavra, um gesto, um sinal, um simples ato de sua vontade. Três palavras pronunciou para resuscitar a Lázaro e outros tantas lhe bastariam para restituir a vida a todos os mortos. já, ao contrário, para restituir-nos a vida a graça, o Deus omnipotente empreende uma obra quel lhe consome anos de fatiga, de sofrimentos e lhe custa a própria morte. E o fez alegremente porquanto sabia que a graça valia semelhante combate. Diz-me: " Seguirias-tu, meses e anos, parmilhando, sem te afastares, a senda do pecado? Seria exigir muito pedir-te um pequeno esforço para tua conversão? julgas livrar-te de teus pecados por uma rápida confissão e imediatamente te sentes alegre, como se nada houvera. Não é de estranhar esqueças logo tuas resoluções! Infeliz! O hábito do pecado conduziu-te a esta deplorável cegueira! Como verdadeiro servo de Deus, pensa no preço da tua redenção, aproxima-te do sacramento da reconciliação com o coração contrito, formando o propósito de te corrigires e conservares com o máximo cuidado a graça recuperada" --- Lembra-te sempre das palavras do apóstolo: "Ignorais a quem agora pertenceis? Fostes comprados por um grande preço. Glorificai a Deus e fazei-o em vosso corpo".

             ...  A graça é, por fim, tão preciosa aos olhos de Deus, que preferiria ele lançar sobre o mundo  todas as catástrofes, a vê-la perdida. Conheceste talvez guerras e pragas convertendo rapidamente em deserto um rico país. Surgem desgraças que privam de bens e honra famílias inteiras. Deparam-se-nos individuos  acabrunhados de males, justos que sofrem perseguições, e maus que aparentemente triunfam. Tudo isto permite Deus para incitar os homens a buscarem sua salvação, não na terra, mas na graça. Mesmo os males que são ocasião de que alguns insultem a Divina Providência, ainda estes, Deus os permite, pois tudo isto nada é, em comparação com a sua graça. Por eles quer Deus converter os homens. Tendo sacrificado seu Unigénito, por que não destruirá o universo, de perferência a ver a humaniade privada de su graça?
 
          Sirva o que acabamos de dizer, para demonstrar-vos o valor da graça. Contanto que a conservemos, pouco importa nos deixemos despojar de nossa reputação e nossa honra. Se mantivermos este tesouro, em nada nos interessa perder nossas riquezas, nossos parentes, nossos filhos, nossos amigos, nossa saúde, nossa vida, o céu e a terra. Cristo aconselha a vendermos tudo, pela graça, e dar os nossos bens aos pobres, a rompermos com os mais caros laços, a desprezarmos e sacrificarmos nossa própria vida. De tudo isto nos deu ele o exemplo. De fato, quem achou a pedra preciosa da graça, convença-se de que alcançou o preço do reino dos céus, e o possui totalmente.
 
(continua...)

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

        DA ESTIMA EM QUE DEUS TEM A GRAÇA

(continuação de trechos  de  Matthias Joseph Scheeben :retiradas  do seu magnífico livro intitulado                                                          "As Maravilhas da Graça Divina")


             Ó cristão, com o que escutaste, estás na disposição de crer, de compreender até que ponto é a graça preciosa. Se tudo isto nenhum efeito produziu em ti, ou por ser ela invisível a teus olhos, ou porque te acorrentam os atrativos dos bens sensíveis, aprende ao menos a conhecer o valor da graça, pela estima que dela faz o próprio Deus. E se nem isto podes alcançar, submete humildemente teu espírito à fé, faz teu juízo de Deus, pesa o valor da graça na infalível balança do Senhor.

              Que achas? por acaso poderia Deus em sua sabedoria, em seu poder, em sua bondade, fazer mais do que tem feito para te dar a graça? Poderia comunicar-te alguma coisa maior do que o que te deu? Nada poupou, entregou-nos seu Filho Único, seu próprio sangue, sua própria vida.

              Graças à infinita dignidade de sua pessoa divina, a vida humana de Cristo é uma vida divina; podia ser sacrificada senão para comprar outra vida divina. O Filho de Deus não teria dado sua vida, nem sequer uma gota de seu sangue, pela terra com toda a sua variedade de seres vivos, pelo céu com todo seu esplendor. Atendo-nos, porem, à afirmação dos teólogos, não se teriam perdido a Encarnação e a morte do Filho de Deus, se houvesse merecido a graça apenas para uma só alma humana. Ao oferecer, pois, sua própria vida por nós, queria o Filho de Deus mostrar-nos que nos conseguia a vida de filhos de Deus, e que a graça com que pretendia adornar nossas almas valia o mesmo que seu divino sangue. Se sua vida corporal é de dignidade infinita porque pertence a uma pessoa divina, a vida da graça tem um valor infinito porque nos faz participantes da natureza divina.

                Uma vil traição  despojara o homem da graça que Deus lhe conferia por amor. Com o mesmo amor, e maior ainda, quis Deus no-la dispensar novamente; para tal fim sacrificou quanto lhe podia permitir sua infinita sabedoria. Concebeu um tão arrojado plano que deixou  estupefatos os habitantes do céu. Determinou fazer-se homem para restituir aos homens a dignidade de filhos de Deus, conseguindo retornassem,assim, à casa paterna. Contempla como o Filho de Deus abandona o trono de seu pai e se encerra no seio de uma mulher. Notai-o bem! Não se detém entre os anjos, mas se rebaixa a ponto de tomar sobre si os sofrimentos e as misérias da natureza humana. Não queiras pensar que por tão alto preço vem comprar sua própria salvação, seu bem-estar, sua glória e divindade. Nada disto! Queria merecer nesta terra a graça, que aqui tão pouco se estima, e não julgou pagar por ela um preço por demais elevado sacrificando-se tanto. Comprou-a, não para si, mas para nós. Pois bem, não se sacrifica alguém inutilmente quando se trata de adquirir bens para os outros. Conclui-se, portanto, que julgou Deus inestimável o preço da graça, para submeter-se se o Filho de Deus, que em sua sabedoria julga de todas as coisas, quis pagar tão caro nossa graça, envergonhemo-nos, de desprezá-la tão inconsideradamente. Deveria ser-nos coisa mais terrível que o inferno viver um só instante sem graça. Como podemos, estando em pecado, dormir em paz, alimentar-nos, divertir-nos durante dias, semanas e meses? O Senhor se aniquilou por nós para restituir-nos a graça perdida. E a destruímos com as nossas faltas, sacrificamo-la por uma sombra de vanglória ou um miserável prazer! É possível apreciarmos tão pouco uma coisa a que Deus fixou tão alto preço?

                 Não se contentou Cristo com baixar à terra, mas quis ainda sofrer e trabalhar ao longo de trinta anos em natureza humana. Sendo como era Filho de Deus, mesmo em sua natureza humana, tinham todas as suas ações um mérito infinito (S. Tomás, III, q. 48, a.2 ad 3); uma só gota de seu precioso sangue, um ato de amor para com seu Pai celeste, qualquer obra realizada para a sua glória, teriam bastado para restituir-nos a graça. Mas para lhe compreendermos o valor, quis mostrar-nos que um Homem-Deus não podia fazer sofrer demais por ela. Sofreu quanto pode sofrer um homem; e até pode dizer-se infinitamente, não só pelo  que respeita a sua dignidade, como também pela intensidade do sofrimento. Para saciar-nos com o pão de sua graça, jejuou quarente dias; para revestir-nos com a graça, deixou-se coroar de espinhos; para embeber nossa alma com a água celeste da graça, deixou atravessar-se mãos e pés; finalmente, para elevar-nos a seu trono e dar-nos a vida divina, sacrificou sua vida no patíbulo da cruz.

                Olha, ó cristão, e julga! Poderá ser uma futilidade o que te consegui o Filho de Deus com tanto trabalho? Crês facilmente nos homens que prometem a liberdade, a comodidade, as honras, e se proclamam benfeitores da humanidade. Mas detém-te um instante: basta que se trate  de se sacrificarem, para logo se escusarem: aí está a pedra de toque de seu mérito e de sua filantropia. Por que então não terás fé em teu Salvador que se sacrificou?

                 Se Cristo te dissesse que, para merecer a graça. deves tudo sofrer, deverias nele crer. Quanto mais não deves então lhe estimar o preço, vendo-o sofrer, ao indizível, para ta conseguir! Se o acreditares compreenderás que o mais insignificante sofrimento, aceito com os olhos da graça, é nada em comparação do seu valor. Se tivesses que sofrer todas as penas do inferno, serias, com tudo isto, incapaz de merecer um só átomo deste dom. Agradece, pois, ao salvador o teu sofrimento por ti. Procura assemelhar-te a ele no sofrimento, para mostrar-lhe que aprecias sua graça.

                 Não contente de dar-nos sua vida, para espalhar a graça entre os homens, institui Cristo um sacramento e um sacrifício nos quais se contém nada menos que seu próprio corpo e seu próprio sangue. Não lhe bastou nascer, morrer e ser sepultado uma só vez. Misteriosamente quis renascer, milhares de vezes, ininterruptamente, em todo o mundo, por meio das mãos sacerdotais; sobre os altares da Santa Igreja quis renovar  o sacrifício da cruz e renovar o ato de sua sepultura no coração dos fieis. Quantas ofensas e injúrias não tem tido ele que sofrer neste sacramento! Ora profanam-no as mãos de sacerdotes indignos, ora cumpre-lhe estar nos tabernáculos descuidados, quando não em corações manchados pelo pecado! Qual a razão destas incontáveis idas e vindas do céu à terra? É o zelo ilimitado do Filho de Deus, que deseja dar-nos a graça. Atitude que contrasta com a nossa cegueira, pois mal damos um passo para consegui-la; corremos ao contrário atrás daquilo que no-la arrebata.

                    Se o valor real da graça não iguala ao preço que por ela foi pago, a lembrança de tão custosa compra deveria fazê-la infinitamente preciosa aos nosso olhos. Quanto mais nos custou a aquisição de um objeto, tanto mais o estimamos.

  (continua...)

domingo, 13 de outubro de 2013

                  A GRAÇA E A DIGNIDADE DA MÃE DE DEUS

(continuação de trechos  de  Matthias Joseph Scheeben :retiradas  do seu magnífico livro intitulado                                                          "As Maravilhas da Graça Divina")



            
          Tendo dado ao filho de Deus sua natureza humana, mais que nenhuma outra criatura tem ela o direito de participar, pela graça, da natureza divina de seu Filho. Durante nove meses forma, por assim dizer, com o Filho concebido em seu seio, uma só pessoa; são idênticos seus direitos, seus bens, sua santidade. Maria é a mulher contemplada por S. João no Apocalipse, não apenas recebendo a luz do sol, mas ainda revestida do próprio sol.

                  A graça que lhe enche a alma tem, sobre todas as criaturas, a prerrogativa única de lhe ser concedido por um privilégio especialíssimo. Semelhantemente a seu Filho possui a graça sob um aspeto tão necessário  que dela não pode estar privada; teme-na em tal abundância e plenitude que todos nós dela podemos receber. Foi seu Filho chamado cheio de graça e de verdade; e também ela foi denominada, pelo anjo, cheia de graça (Lc 1. 28). Seu filho é por natureza o Filho Unigénito do Pai; ela é sua filha bem-amada.

                 Se considerarmos a dignidade de Maria, vendo como nela a maternidade divina se une à graça e a graça à maternidade, concluiremos ser impossível comparar nossa dignidade com a dela. Se, porem, esquecermos por um instante estarem unidos estes dois privilégios, e considerarmos unicamente a maternidade em si, sem relacioná-la com a graça, podemos afirmar, sem receio de injuriar a Mãe de Deus, ser a graça um bem maior que lhe confere uma dignidade superior à que encerra a maternidade divina.

                 Mãe de Deus segundo a carne, Maria supera infinitamente a toda criatura. Tem o direito de ser amada e respeitada por seu Filho, venerada pelos anjos, servida pelos homens; tudo lhe está submisso. Preferiria ela, porem, privar-se de tudo isto, com prazer sacrificaria as honras da maternidade, antes que perder a graça. Quereria antes ser, pela graça, filha de Deus, que mãe de Deus por natureza, pois sabe perfeitamente que Jesus, embora a ame com amor incomparável, contudo amaria mais a outra alma, se a encontrasse mais rica em graça.

                  Foi o que quis Nosso Senhor dizer quando lhe anunciaram a chegada de sua mãe e seus parentes. Saíram-lhe dos lábios, nessa ocasião, estas assombrosas palavras: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E apontando a seus discípulos: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe". Em outra ocasião, como uma mulher do povo louvasse a Mãe com estas palavras: Bem-aventurado o seio que te trouxe e os peitos que te amamentaram, deu ele esta significativa resposta: Antes bem-aventurados os que escutam a palavra de Deus e a praticam.

                     Por certo não queria N. Senhor renegar sua Mãe ou ofendê-la. Queria simplesmente declarar que nem mesmo Maria podia ser digna dele, se não cumprisse perfeitamente a vontade do Pai celeste, se não escutasse sua palavra e não possuísse, na mesma medida, a graça de Deus. Se, por impossível, ficasse Maria, neste ponto, inferior a outra alma, teria esta a preferência de Jesus.
       
                    Com efeito, deu Maria à luz o Salvador, segundo a carne. Por ter em si recebido o Verbo eterno e o haver revestido de forma humana, guardava com ele certo parentesco natural. Quando, porem, recebeu em sua alma a palavra de Deus, concebeu igualmente e deu à luz seu Filho, no próprio espírito, e de certo modo o revestiu do reflexo da natureza divina que pela graça receberá; eis o que lhe originou um parentesco celeste com seu Filho. É este parentesco inseparável do primeiro. Assim, por todo o sempre será verdade o que escrevia S. Agostinho: "Nenhuma vantagem obtivera a Virgem, da maternidade, se não chegara a se considerar mais feliz por trazer a Cristo em seu espírito, do que em sua carne". Não se segue daí não ler a maternidade corporal de Maria valor algum para ela. Seu mais belo privilégio, porem, consiste em ser esta maternidade inseparável da graça, que por outro lado a acompanha necessariamente.

                       Se a austeridade divina de Maria, sem a graça, lhe fora inútil, de modo que iria ela preferido esta segunda dignidade à primeira, com que então podemos comparar a dignidade da graça divina? Por que queremos parecer grandes aos olhos dos homens e nos despreocupamos de ver inscrito nosso nome no livro da vida? Como podemos gloriar-nos de alguma vantagem corporal sobre o nosso próximo, se pela graça podemos  superá-lo. já que N. Senhor em pessoa nos coloca no mesmo plano que sua Mãe?

                        ... Em razão de sua maternidade, Maria devia ser absolutamente pura e santa; nem a sombra do pecado podia dela aproximar-se. Repugna sequer pensarmos pudesse ela ter ofendido ao Filho com a menor falta, e mais ainda com uma ofensa grave. Nossa união com Cristo deve bastar-nos para conhecermos como um mal incomensurável o menor pecado.

                      Não quero omitir uma ultima consideração, um pensamento consolador. Maria sobrepuja-nos em grandeza por ser Mãe de Deus, mas é também nossa mãe. Como a Mãe de Deus é nossa Mãe? Não segundo a natureza humana, pois não dela, e, sim, de Eva a recebemos. É nossa Mãe por sermos irmãos de seu Filho único, membros vivos de seu corpo; é , portanto, nossa Mãe segundo a graça. Com efeito, na ordem da graça só podemos ter a Deus por Pai; por conseguinte, ninguém, senão a Mãe de Deus, pode ser nossa Mãe.

                       Sentimos em transportes o nosso coração ao pensarmos que a Rainha do céu e da terra é nossa Mãe. Assiste-nos razão de sobra para lhe agradecermos a herança que por ela nos advém, seu maternal amor, e a imagem que imprime em nossa alma ao fazer-nos semelhantes a si e a seu Filho..

                      Devemos amar e honrar a nossa Mãe. Com coisa alguma melhor lhe demonstraremos nosso reconhecimento de que com o esforço por preservar e conservar em nós a graça que nos dá por meio de seu Filho. Não nos tornemos indignos de nossa Mãe; não rejeitemos a honra de ser filhos seus, perdendo a graça!

(continua...)

                   

sábado, 12 de outubro de 2013

A GRAÇA E A ENCARNAÇÃO  DO FILHO DE DEUS

(continuação de trechos  de  Matthias Joseph Scheeben :retiradas  do seu magnífico livro intitulado                                                          "As Maravilhas da Graça Divina")



            Tão grandes e tão belas são as maravilhas até agora descritas, que poderia parecer  impossível falar ainda alguma coisa mais elevada, excetuando Deus. Sendo de certo modo infinitas, não poderíamos conceber, sem uma revelação de Deus, guiada pela luz da razão e mesmo pela luz da fé, maravilhas mais estupendas. Revelam-se-nos, entretanto dois mistérios, sem dúvida alguma superiores ao da graça: Ei-los: o mistério da Encarnação do Verbo e o da Maternidade divina de Maria (S. Tomas, I, q 25, a. 6 ad 4).

                Quanto mais consideramos o sentido destes profundos mistérios, tanto melhor vemos colocar-se em todo seu esplendor o mistério inigualável da graça, recebendo  uma glória especialíssima.

                Em virtude da Encarnação une-se a natureza humana de Cristo em uma só e mesma pessoa, com o Verbo divino. Deus é verdadeiramente homem, e um homem é verdadeiramente Deus. Não se muda em divina a natureza humana, mas, desprovida de subsistência, se incorpora à segunda pessoa da Divindade. E isto, de modo tão extraordinário se dá, que a natureza humana lhe pertence e fica revestida de uma dignidade divina.A graça não nos muda em Deus, porquanto conservamos nossa natureza  e personalidade; mas  nos diviniza, no sentido de que nos faz semelhantes à natureza de Deus por uma propriedade divinizante. A elevação da natureza humana de Cristo à dignidade de verdadeiro Deus é, por conseguinte, infinitamente superior à nossa união com Deus pela graça.

             Esta elevação da natureza humana de Cristo  - se a consideramos com maior atenção - não é uma honra tributada a uma pessoa criada, porquanto não existia em Cristo tal pessoa. É antes um abaixamento de Deus, pois desce ele de seu trono para se apropriar uma natureza humana. Não afirmamos que um homem se  transformou em Deus, e, sim, que um Deus se fez homem. Pela graça, ao contrário, uma criatura - o homem - sem ser nem se fazer Deus, torna-se contudo participante da natureza divina; sob este aspeto, admiramos de certo modo, mais a graça que a Encarnação.

            Pergunta S. Pedro Crisólogo: "Que é mais assombroso, que Deus se dê à terra ou que nos dê o céu; que se comunique com nossa carne ou que nos introduza na comunhão de sua divindade; que nasce sob a forma de um servo ou que nos gere na qualidade de filhos livres; que adote nosso mistério ou que nos faça seus herdeiros, co-herdeiros de seu filho unigénito? Sim, a maior maravilha é tornar-se a terra um céu, transformar-se o homem pela divindade, terem os servos direito à herança...

            Esforça-te, ó cristão por não profanar tua dignidade divina. Que não se diga de um irmão de Cristo o que não convém a um homem e nem a um anjo, mas apenas a um demónio. Pertence inteiramente, com todos os teus pensamentos, palavras e obras, àquele que, entrando em nossa carne, nos adotou como seus. Sigamos a exortação de S. João Crisóstomo: "Honremos nossa cabeça; consideremos de quem somos membros. Procuremos superar em virtude aos anjos e arcanjos, já que Deus, ao assumir nossa natureza, a assumiu totalmente. Continua o santo, estendendo-se neste sentido, e termina com a seguinte lamentação:"  É possível seja o corpo de tal Cabeça lançada aos demónios e por eles profanado e pisado, sem sequer nos comovermos com o horror deste crime?"

           Pelo batismo ingressamos no corpo místico de Cristo. Como sinal e penhor de nossa união com ele, recebemos o caráter sacramental. Pertencemos a Cristo e Cristo nos pertence. Somos verdadeiros cristãos, isto é, somos, de certo modo, o próprio Cristo, pois com ele formamos um só corpo. O caráter impresso em nossa alma é indelével; por longa que nos seja a vida, dá-nos direito à graça de Deus, porquanto deve o corpo estar cheio de vida gloriosa de Cristo. Não possuímos, porem, tal direito sob a condição de nos portamos como Cristo o deseja. É o pecado já uma grande falta porque repele a graça, da nossa natureza: é, porem, muito maior ainda porque arrebata a um membro de Cristo sua vida celeste. Deixar-mo-nos privar da graça, rejeitá-la levianamente, vender-mo-nos com ela ao domínio, é coisa tanto mais culpável, quanto nos pertencia a graça como propriedade, e pelo caráter sacramental tínhamos de Cristo a garantia de que nenhum poder do céu ou da terra seria capaz de dela despojar-nos. Será útil prestarmos atenção a S. Gregório Nazianzeno que nos  ensina a combater os ataques do demónio: "Se te tenta ele pelo orgulho, se te mostra, em um estante, todos os reinos do mundo, como se lhe pertencessem e tos oferece com a condição de o adorares, despreza a este miserável, confia no selo que levas impresso em tua alma e diz-lhe: "Sou a imagem de Deus, não, porem, como tu, um decaído, pelo orgulho, da glória celeste; estou revestido de Cristo, adore-me tu! Dar-se-á por vencido com estas palavras, e, cheio de confusão, voltará às trevas"

(continua...)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

EN CERTO SENTIDO A GRAÇA É INFINITA

(continuação de trechos  de  Matthias Joseph Scheeben :retiradas  do seu magnífico livro intitulado                                                          "As Maravilhas da Graça Divina")


     

      A nova natureza conferida pela graça possui o privilégio único de ser, de certo modo, infinita, como participação que é da natureza infinita de Deus.

            Todas as outras naturezas, já o dissemos, são como que refrações da luz divina; a graça, ao contrário, é um raio puro e íntegro, que tira a alma de seu âmbito natural e de seu meio para lhe permitir a visão de Deus em sua essência infinita. Não se lhe concede tal possibilidade, a não ser possuindo ela alguma coisa do poder infinito de Deus. Assim sendo, seu valor iguala, de certo modo, ao bem infinito por ela conferido.

            As criaturas guardam sem exceção, em sua perfeição, um limite que não podem ultrapassar. Mesmo quando livres de toda impureza, lhes é impossível progredir aperfeiçoando-se cada vez mais. Cada planta alcança uma determinada altura, onde se detém. Crescem os diversos animais até que se lhes desenvolva o corpo e se forme seu organismo; uma vez atingido este termo, é-lhe impossível seguir adiante; quando viverem o tempo próprio, começa sua decadência, sobrevindo a morte. As próprias criaturas racionais têm, segundo sua natureza, um limite na linha da perfeição: progridem enquanto se desenvolvem suas forças naturais; como são estas limitadas, também se lhes deterá o desenvolvimento em um ponto determinado.

           Somente a graça desconhece fronteiras. Raio da natureza divina caindo sobre nossa alma, não conhece outra medida e limitação senão a infinidade de Deus; pode, portanto, crescer dia a dia, a cada instante, e enriquecer-se sem cessar; nunca ultrapassará seus limites, pois não os têm. Será sempre graça a participação da natureza divina. Torna-se cada vez mais o que é e o que deve ser.

             Que será capaz de impor limites ao amor sobrenatural? - pergunta o Anjo da Escola (S. Tomás, II-II, q 24, a.7). O mesmo se dá com a graça que cresce com ele. Tem ela origem no poder eterno e infinito de Deus e é precisamente uma participação da infinita santidade de Deus. Se guarda o vaso de nossa natureza uma capacidade limitada, uma vez elevada acima de sua condição, aumenta infinitamente esta capacidade. Toda  medida de graça recebida o torna apto para uma medida ulterior ainda maior; todo aumento prepara um novo aumento: quanto mais sobe, mais suscetível de torna de continuar crescendo.

             Em si, um aumento de graça é infinitamente precioso, um tesouro preferível a todos os tesouros da terra. Devemos, com o Apóstolo considerar como perda todas as coisas, contando que consigamos Cristo e sua graça. A preciosidade de um semelhante tesouro baseia-se em ser ele um capital que cresce e se multiplica ao infinito. Isso exige, porem, nossa colaboração. Uma ação sobrenatural qualquer, realizada em estado de graça, e toda utilização da graça já possuída, sobretudo quando  a fazemos frutificar, fazem-nos diante de Deus credores de um aumento de nosso tesouro. De nós depende pois duplicá-lo em pouco tempo. Na proporção em que aumenta a graça, cresce também  e multiplica-se nosso capital.

              Esforça-se excessivamente o mundo, ou como diz ele, especula tenazmente, para conseguir o dinheiro, de modo seguro e estável. Fica alguém, por vezes, estupefato ao encontrar-se com homens, tornados, da noite  para o dia, mais ricos que um monarca! Perecíveis tesouros que não podem fazer feliz seus possuidores, e que pode uma fagulha destruir como se foram papeis! E não obstante são os filhos do mundo mais hábeis para seus negócios que os filhos de Deus! Que vergonha! Poderiam estes ganhar, com a mesma facilidade, tesouros eternos, obrigações que, de reembolsá-las se encarregaria, não um agente de cambio, nem mesmo um soberano, e, sim, o próprio Deus, que se preocupa em nos recompensar os esforços, com a plenitude de sua glória e de sua felicidade.

                 .... Se com tanto ardor tendêssemos para os bens da graça, tornar-nos-íamos verdadeiramente ricos. Eis por que nossa lentidão não admite escusas. Será que tememos, à semelhança do avarento , nos fazer infelizes por um desregrado afoitamento? Torna a cobiça infeliz, porque não goza ele do que adquiriu, e tem, afinal, que perder tudo. Pelo contrário, o santo desejo da graça leva-nos ao eterno repouso em Deus; nele nos saciaremos, na medida em que o houvemos desejado. Nada nos impede regozijarmo-nos com o possuído; crescerá nosso desejo à medida que vamos experimentando estarmos servindo a um Senhor tão bom.

 (continua...)

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A GRAÇA NOS CONFERE UMA NATUREZA NOVA E SUPERIOR

(continuação de trechos  de  Matthias Joseph Scheeben :retiradas  do seu magnífico livro intitulado                                                          "As Maravilhas da Graça Divina")


     
 ... Quando aqui falamos de uma mudança de nossa natureza, não queremos dizer seja nossa substância destruída ou absorvida na substância divina. Seria tal uma afirmação ímpia. Trata-se unicamente de uma transformação, pelo qual somos glorificados. Deve, porem, esta transformação  ser apreciada em seu justo valor, pois a não podemos comparar com a mudança que se exprime dizendo ter alguém mudado de resolução, ter adotado um novo costume, ser agora outro homem.
   
           Provem esta transformação de Deus, e não da vontade ou do esforço da criatura; é um milagre da omnipotência divina, que, segundo o ensinamento dos Padres, nos arrebata aos limites da natureza, eleva-nos e glorifica-nos. Converte-nos em outros homens, em seres divinos de uma estirpe celeste.

            Esta transformação nos faz perder nossa substancia natural. Repetem-nos os Padres em todos os tons, por exemplo, quando empregam a imagem do ferro incandescente. Não deixa ele de ser ferro; por isto, uma vez retirado do fogo, volta ao que era antes era. Durante a incandescência, deixa de ser duro, frio, de cor amortecida, para tomar o brilho, o ardor, o poder do fogo, e adquirir uma propriedade que não é sua, mas, sim, do fogo. Quando dizemos que o fogo consome o ferro, não queremos afirmar que o aniquila, pois lhe consome apenas as impurezas. Do mesmo modo, ensina-nos S. Cirílio, pela graça não perdemos a substância de nossa natureza, e, sim, sua baixa condição, suas imperfeições. "Os que são chamados - diz ele - pela fé em Cristo à adoção divina, abandonaram a fraqueza de sua natureza; a graça de Deus os glorifica, cobre-os, com uma veste resplandecente e os eleva a uma dignidade sobrenatural.

             ... Se pela graça recebemos uma nova natureza celeste, que não devemos fazer para alcançá-la, conservá-la e viver em conformidade com ela? Seria mui pouco respeitar a dignidade humana comportar-se como os animais, abandonando-se aos mesmos prazeres e paixões que eles. Seria, por certo, vergonhoso para um homem - se possível - descer ao nível dos brutos, realizando um ato que o privasse de seu ser racional. É isto porem, absurdo visto ser a imagem de Deus em nossa alma inapagável. É possível, contudo, a um homem, pela embriaguez e - o que é pior - pela libertinagem, colocar-se em tal estado que mais se parece a um animal que a um homem. É um ato contra a natureza, que só nos pode fazer estremecer. Que fazer então, diante do pecado mortal? Realmente, não obscurece ele, por algum tempo, em nossa alma a natureza celeste, mas a destrói completamente.

             Compõe-se o homem natural, falando em termos comuns, da duas naturezas, a carnal e a espiritual. Existem nele como que dois homens, o exterior e o interior, ou, como diz o Apóstolo, um homem mortal e outro imortal. Como não podemos servir ao mesmo tempo a duas naturezas, cumpre-nos subjugar a natureza carnal à espiritual. Assim como deve a carne sujeitar-se ao espírito, do mesmo modo deve nosso espírito servir ao Espírito de Deus e à graça; como tem o espírito a carne sob si, tem igualmente a graça sobre si. Se se entrega à carne, rebaixa-se até ao seu nível, faz-se carne; se se dá à graça, se se deixa penetrar e mover por ela, eleva-se até Deus, faz-se semelhante a ele. Diz S. Agostinho: "Aquele que ama a terra é terra; o que ama ao mundo confunde-se com ele; o que ama a Deus, que direi ser ele, irmãos meus? Não serei u e, sim, a palavra divina que nos ensinará: Disse, vós sois deuses e filhos do Altíssimo. Na realidade em que colaboramos com a graça ou tendermos até seu Autor, o Pai das luzes, ver-nos-emos cheios de sua natureza. É abominável que, podendo alguém elevar-se tão alto, nas asas da caridade celeste, prefira arrastar-se no lodo dos prazeres carnais.

             A graça deve ser para nós objeto de legítimo orgulho. Fazendo-nos pertencer a uma linhagem celeste, deve encher nosso coração de nobres sentimentos. Não devemos, porem, perder de vista ser esta nova natureza coisa gratuita, concedida por uma pura condescendência de Deus.

              ... A virtude da graça age em nossa fraqueza, dela triunfa e a extinguirá um dia, na glória celeste. Podemos dizer com o Apóstolo: "Glorio-me em minhas fraquezas para que a força de Cristo habite em mim; comprazo-me em minhas misérias, pois quando me sinto fraco, então é que sou forte (2 Cor 12, 9-10).

(continua...)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

COMPREENDES PORQUE A GRAÇA SE CHAMA SANTIFICANTE

(continuação de trechos  de  Matthias Joseph Scheeben :retiradas  do seu magnífico livro intitulado                                                          "As Maravilhas da Graça Divina")



    Compreendes agora, ó cristão, porque a graça se chama santificante? Não significa esta palavra tão somente que perdoa ela nossos pecados e nos dispõe para a observância dos mandamentos; indica mais ainda: faz ela da alma uma imagem  radiante da bondade e da santidade divinas. Significa, além disto, que a graça, diferentemente da natureza, é incompatível com o pecado grave; não podendo coexistir ambos em uma mesma alma (adv. Eunonium, I.III, n. 2). Quando cometes um pecado mortal, não destróis tua natureza, nem tuas faculdades, nem a força da tua razão, mas desaparecem, no instante mesmo, a graça, as faculdades e as virtudes sobrenaturais. Da natureza divina, não travam elas aliança com o pecado, à semelhança do próprio Deus. Quando a luz da glória houver substituído a graça, quando tua alma se tiver intimamente unido a Deus, não mais terá possibilidade de pecar; pela virtude de Deus que em ti habita, tornar-te-ás impecável como Deus.
 

        Quão pouco meditamos no dom magnífico, na dignidade que nos coube em partilha! Fala S. Ambrósio: "Se fôramos somente nós, os homens, os chamados a receber a Santidade do Espírito Santo, encontrar-nos-íamos, sem  dúvida, elevados acima dos mais belos anjos (De Spir, S.1. 1, c. 7). Indubitavelmente, os Serafins, ocupados em louvar ao Deus três vezes santo, nos admirariam com profundo respeito. E dizer que queremos nós pôr toda a nossa glória na impiedade!

       Por mais perverso que seja, não regateia o pecador,  no mais íntimo de seu coração, o reconhecimento e a admiração pela santidade que brilha em tantos membros da Igreja de Cristo, pois dir-se-ia que Deus mesmo vivo e trabalha neles. O que constitui a glória dos santos é terem eles colaborado fielmente com a graça que todos podemos adquirir, e tê-la trazido em toda a sua vida. O Apóstolo (2 Cor 1, I) chama santos a todos os cristãos que estão em graça: Foram santificados nas águas da regeneração pelo fogo do Espírito Santo, e de, certo modo, possuam a substância da santidade. Todos podemos e devemos, embora em graus diversos, tornar-nos, realmente santos; somos de alguma  sorte, irmãos e filhos de santos:  sim, filhos do Deus três vezes santo. Inqualificável falta a nossa, que com tanta frequência manchamos deliberadamente a veste de santidade recebida no batismo! Impiamente a estraçalhamos, lançamos por terra e a calcamos aos pés!

         Nossa própria natureza, embora não destruída, mas afetada pelo pecado, se revolta apesar de tudo contra ele: é que foi criada por Deus para exercer uma função que exclui a injúria ao criador. 

(continua...)